sexta-feira, 16 de abril de 2010

Homenagem a um companheiro decidido e decisivo

Almyr Gajardoni

Sábado, dia 24 de maio, fui a Brasília rever meu amigo, companheiro e parceiro de reportagem política D’Alembert Jaccoud. Nós nos conhecemos na inauguração da cidade, em abril de 1960 – eu vindo da redação da
Folha, em São Paulo, ele da sucursal do Rio de Janeiro. A política que
eu cobria era provinciana e tacanha, espremida entre os limites que
iam de Adhemar de Barros a Jânio Quadros. Em São Paulo, os grandes
partidos, PSD, UDN, PTB, eram insignificantes diante dos dois
gigantes. Atravessar as portas do Congresso Nacional, recém abertas,
foi, portanto, uma grande descoberta para mim. Brasília foi na minha
vida a universidade que nunca frequentei – ali me tornei o que sou. E
D’Alembert, com sua vivência carioca, a militância na UNE, o
conhecimento dos grandes craques que eu ainda iria encontrar –
Santiago Dantas, Afonso Arinos, Bilac Pinto, Pedro Aleixo, Filinto
Muller, Adauto Cardoso, Almino Afonso, Temperani Pereira, o próprio presidente Juscelino Kubitschek – foi meu primeiro e melhor professor.

Eu observava a política à distância; ele vivia a política. De certa
forma, era um militante, até porque tinha sempre uma sólida posição
pessoal a respeito de tudo. Poderoso e convincente argumentador,
revelando já o advogado que viria a ser, embora naquele momento
tivesse o diploma enfurnado no guarda-roupa. Nasceu para ser
jornalista político e nada mais. Com idéias na cabeça, mas sem
partidos, impecavelmente neutro no que escrevia e publicava. Ninguém
jamais lhe negou a confiança para passar-lhe as informações que era
mestre em arrancar. Nunca lhe confessei, mas tinha dele uma inveja
danada: ele sentava-se meia hora com Martins Rodrigues, nos tempos
antigos do PSD ou nos mais recentes do MDB, e saía de lá com o balaio
cheio de informações sobre o que havia acontecido e o que ainda iria
acontecer. Eu, na mesma situação, conseguia no máximo uma declaração
chinfrim sobre uma banalidade qualquer.

Tudo isso ensaiei no avião para lhe dizer, no sábado, inclusive a
inveja. Não foi possível. Ele estava debilitado, falava com
dificuldade, não seria possível manter um diálogo assim diversificado.
Estava perfeitamente lúcido – pediu-me notícias de amigos comuns de
São Paulo, eu as dei laconicamente, e consegui dizer-lhe que era uma
pessoa muito importante na minha vida, que havia me ensinado muito.
Ele respondeu que eu também tinha sido importante para ele, e também
lhe ensinara muitas coisas. Confesso não ser capaz de enxergar que
coisas teriam sido essas. Lembrei nossos companheiros daqueles tempos,
Castelinho (Carlos Castelo Branco), Evandro (Carlos de Andrade),
Benedito Coutinho, Otacílio Lopes. Ele me observou, com uma inesperada
ponta de vivacidade no olhar e de ironia na fala: “Estão todos mortos,
não é?”.

Cansou-se rapidamente com a conversa e adormeceu. Peguei o avião de
volta para São Paulo, no domingo recebi a notícia de que havia
morrido. Comecei então a lembrar. Fomos parceiros na cobertura de
alguns momentos importantes da política brasileira. A renúncia de
Jânio Quadros, que bloqueou a consolidação do regime democrático há
pouco restabelecido e nos devolveu àquela sinistra sucessão de crises
e ameaças de golpe militar. Todo o atribulado governo João Goulart, o
golpe propriamente dito em 1964. Nessa época, ele era o correspondente
da agência de notícias cubana Prensa Latina, e sofreu por isso
diversos atropelos. Acabamos separados profissionalmente: eu fui para
a Veja recém fundada, em 1968, enquanto ele continuava na Folha e no
JB, onde mantinha a coluna “Coisas da Política” e substituía o
Castelinho na “Coluna do Castelo”. Éramos concorrentes, mas sempre
amigos.

Em 1971, devido à sua insistência em buscar a verdade sobre a prisão e
o assassinato do então deputado Rubens Paiva, foi preso pelo Doi-Codi.
Nos anos seguintes, as pressões militares para afastá-lo do jornalismo
deram certo e ele saiu dos dois jornais. A convite de Zuenir Ventura,
passou a chefiar a sucursal da revista Visão em Brasília.

Quando Said Farah vendeu a Visão para Henry Maksoud, em 1974,
hospedei-o em minha casa, em São Paulo, onde toda a redação, demitida
coletivamente, se reuniu, para cuidar da vida. Era uma grande equipe
– Zuenir, Luiz Garcia, Vladimir Herzog, Luiz Weis, Rodolfo Konder.
Cada um seguiu seu caminho próprio, no jornalismo, menos D’Alembert:
tirou o diploma do armário e foi advogar com Sigmaringa Seixas, em
Brasília.

Algum tempo depois, conseguimos convencê-lo a voltar ao jornalismo:
foi ser chefe da sucursal de Veja em Brasília, tendo Pompeu de Souza
como chefe do escritório. Voltamos à nossa velha parceria, pois eu era
o editor de política em São Paulo, junto com Marcos Sá Corrêa,
primeiro, depois sozinho. Logo depois, quando Pompeu se envolveu na
malograda candidatura oposicionista do general Euler Bentes Monteiro à
presidência da República, a sucursal de Veja em Brasília entrou em
crise e ele ficou mais uma vez desempregado (eu já deixara a editoria
de política, mas não perdera o emprego, preparava um livro para
comemorar o décimo aniversário da revista).

Então não houve argumentos que o convencessem, e na verdade ele não
tinha mais motivo nenhum para se deixar convencer. Voltou à advocacia,
agora no escritório de Vitor Nunes Leal, onde se tornou parceiro de
Sepúlveda Pertence.
Trago este artigo homenagem a um companheiro de outro Estado para o jornal do nosso sindicato porque em dois momentos dessa história acima relatada ele foi importante para nós: na histórica greve de 1961, embora nada tivesse a ver com o nosso sindicato (ele era do sindicato do Rio de Janeiro), aderiu prontamente e com entusiasmo à paralisação que eu, Ruy Lopes, Haroldo Lima impusemos à sucursal da Folha em Brasília. E em 1978, quando o Sindicato desencadeou uma série de movimentos nas grandes empresas, ele teve outra vez papel destacado embora não fosse de São Paulo: havíamos conseguido parar a Editora Abril, mas só teríamos sucesso se a Redação de Veja também parasse. Na quinta-feira decisiva, ele fechou a torneira do telex, como haviam feito os outros correspondentes nos Estados e no exterior, e nós conseguimos aprovar as nossas reivindicações.

Depois daquela tardia mútua declaração de amor, no sábado à
tarde, ficou entre nós apenas uma séria pendência não resolvida:
definir onde se produzem melhores mangas e abacates, se na minha
pujante, moderna e progressista Birigui, em São Paulo, ou na
insignificante e obscura Alegre dele, no Espírito Santo?

O livro sobre o livro que ninguém leu

Almyr Gajardoni

Este é um artigo complicado de escrever: os três personagens que nele aparecem, cada um a seu tempo, exigem um longo relato das suas riquíssimas biografias, o que ocuparia muito espaço. Vou tentar resumir, apresentando-os em ordem cronológica.
Nicolau Copérnico, famoso matemático e astrônomo polonês, viveu nos séculos 15 e 16, e foi responsável por um feito memorável: elaborou minuciosas demonstrações matemáticas de que o Sol, e não a Terra, como se acreditava até então, está no centro do Universo. Hoje sabemos que há um enorme exagero nessa afirmação: o Sol é apenas o centro do sistema solar, que engloba oito planetas e seus respectivos satélites. O universo é coisa imensamente maior, e consta que não tem centro nem nada que seja por ele responsável. Copérnico foi responsável, por isso, por uma completa mudança no modo como o homem concebe sua presença no Universo e uma consequente primeira desavença entre ciência e religião, no caso o cristianismo, já representado por católicos e protestantes, que contestaram com a mesma veemência suas afirmações.
Apresentado em latim, como tudo que se escrevia na parte mais civilizada do mundo naquela época, o livro em que Copernico expôs suas idéias revolucionárias já é muito complicado a partir do título: “De revolutionibus orbium coelestium libri sex”, traduzível mais ou menos assim: “Seis livros sobre as revoluções das esferas celestes”.
A primeira (pequena) parte que descreve a nova cosmologia baseada na centralidade do Sol é um refresco, comparado com o que está por vir, um trabalho mortalmente técnico com um manual sobre astronomia plana e esférica, um longo catálogo de estrelas, instruções detalhadas de como passar de uma coleção escassa de observações para os parâmetros das órbitas planetárias e gráficos para previsão das posições dos planetas. O tipógrafo alemão que o imprimiu colocou uma nota para estimular os compradores e possíveis leitores: “Caro leitor, o presente trabalho resgata da Antiguidade a proposta da imobilidade das estrelas e dos planetas, além de apresentar recentes observações, montadas a partir de hipóteses novas e admiráveis. Você também irá encontrar eficientes gráficos que irão lhe permitir calcular com facilidade as posições dos planetas em qualquer época. Assim sendo, compre, leia e lucre.”
Sobrinho do bispo, sendo ele mesmo um clérigo da igreja católica, Copérnico hesitou muito em publicar seu trabalho. Impresso na Alemanha, o primeiro exemplar chegou-lhe às mãos quando estava no leito da morte, e consta que sequer conseguiu folheá-lo. De início nada aconteceu: o livro era mesmo complicado e só os matemáticos muito especializados o entenderam. Quatro cientistas que vieram depois dele encarregaram-se de colocar a descoberta ao entendimento do distinto público. Na Itália, Galileu Galilei envolveu-se numa interminável polêmica com os homens da Inquisição, e só não acabou na fogueira porque pertencia ao mesmo partido político do Papa, dentro da Igreja, e conseguiu ser condenado apenas ao desterro na própria casa, onde morreu em paz. Tycho Brahe, astrônomo dinamarquês, construiu refinadíssimos instrumentos para observação celeste e fez com eles minuciosas anotações, com as quais pretendia contestar Copérnico. Não conseguiu, claro, mas outro polonês, Johannes Kepler, usou aquelas anotações para aperfeiçoar o trabalho original do conterrâneo. Finalmente, o inglês Isaac Newton criou uma nova ferramenta matemática, o cálculo, e com ele chegou à teoria da gravitação universal, que explica detalhadamente o funcionamento do Sistema Solar.

Esta é a história do Copernico, bem resumida, e do sistema por ele vislumbrado. Termina no século 17. Já no século 20, o escritor húngaro Arthur Koestler, filho de judeus que fugiu da Hungria para escapar de um pogroom, juntou-se aos pioneiros sionistas que foram para a Palestina, militou no Partido Comunista Alemão, combateu na Guerra Civil espanhola, ao lado dos republicanos, foi preso e condenado à morte, mas salvo por intervenção do governo inglês, alistou-se na Legião Estrangeira francesa para escapar da deportação para a Alemanha nazista – ufa, que vida. Escreveu 21 livros, o mais famoso dos quais é “O zero e o infinito”, mas para nossa história interessa o de 1959, “Os sonâmbulos”, em que narra os primórdios da Astronomia. Aí aparece Copérnico, claro, e ele garante que De revolutionibus foi um livro que ninguém leu, por ser complicado demais.
O americano Owen Gingerich, astrônomo como Copérnico, pesquisador de astronomia e de história da ciência em Harvard, tomou como ponto de honra provar que Koestler estava errado. E partiu mundo afora, em busca de todos os exemplares existentes da primeira e da segunda edições do De revolutionibus, para verificar se havia anotações feitas por seus proprietários originais que atestariam, com segurança, que a leitura fora feita. Os detalhes dessa epopéia estão no seu livro de 2002, “An annoted census of Copernico’s De revolutionibus”, onde ele descreve, uma a uma, as seiscentas cópias que conseguiu encontrar e estudar. É um livro para especialistas, quase tão difícil quanto o original de Copérnico. Mas depois brindou-nos com “O livro que ninguém leu – em busca das Revoluções de Copernico”, este sim, ao alcance do leitor comum, fascinante, já editado no Brasil pela Record (2008). Aqui ele conta como decidiu enfrentar o desafio de Koestler e narra todas as peripécias que cercaram suas andanças. De passagem, conta muitas coisas da vida de Copérnico e de seu trabalho. Ele conseguiu ter em mãos verdadeiras preciosidades, como os exemplares que pertenceram a Galileu, Kepler, Newton. A Biblioteca do Vaticano, apesar de a obra ter permanecido no Index das proibições até 1853, também tem a sua, que foi a que pertenceu a Tycho Brahe, e está cheia de anotações.
Já no prefácio do seu livro, Gingerich dá uma idéia de como será fácil enfrentar suas 375 páginas: “Em minha escrivaninha está uma tirinha de quadrinhos onde um jovem relata ao pai assombrado estar estudando o De Revolucionibus de Copérnico na escola. O ponto alto da piada se encontra no segundo quadrinho: “Sim, estamos aprendendo a pronunciar o título”. E logo no primeiro capítulo, faz um hilariante relato de seu desempenho como testemunha no julgamento de um homem acusado de roubar livros da biblioteca onde trabalhava, para vendê-los por bom dinheiro. Ele figurava nessa lista como especialista em preços de livros raros e o astuto advogado de defesa tentou desqualificá-lo:
-- Você já fez algum curso sobre estimativa de valor de livros?
-- Não, nunca fiz nenhum curso desse tipo. Tampouco fiz curso algum sobre história da ciência, embora lecione essa disciplina em Harvard.