Almyr Gajardoni
Este é um artigo complicado de escrever: os três personagens que nele aparecem, cada um a seu tempo, exigem um longo relato das suas riquíssimas biografias, o que ocuparia muito espaço. Vou tentar resumir, apresentando-os em ordem cronológica.
Nicolau Copérnico, famoso matemático e astrônomo polonês, viveu nos séculos 15 e 16, e foi responsável por um feito memorável: elaborou minuciosas demonstrações matemáticas de que o Sol, e não a Terra, como se acreditava até então, está no centro do Universo. Hoje sabemos que há um enorme exagero nessa afirmação: o Sol é apenas o centro do sistema solar, que engloba oito planetas e seus respectivos satélites. O universo é coisa imensamente maior, e consta que não tem centro nem nada que seja por ele responsável. Copérnico foi responsável, por isso, por uma completa mudança no modo como o homem concebe sua presença no Universo e uma consequente primeira desavença entre ciência e religião, no caso o cristianismo, já representado por católicos e protestantes, que contestaram com a mesma veemência suas afirmações.
Apresentado em latim, como tudo que se escrevia na parte mais civilizada do mundo naquela época, o livro em que Copernico expôs suas idéias revolucionárias já é muito complicado a partir do título: “De revolutionibus orbium coelestium libri sex”, traduzível mais ou menos assim: “Seis livros sobre as revoluções das esferas celestes”.
A primeira (pequena) parte que descreve a nova cosmologia baseada na centralidade do Sol é um refresco, comparado com o que está por vir, um trabalho mortalmente técnico com um manual sobre astronomia plana e esférica, um longo catálogo de estrelas, instruções detalhadas de como passar de uma coleção escassa de observações para os parâmetros das órbitas planetárias e gráficos para previsão das posições dos planetas. O tipógrafo alemão que o imprimiu colocou uma nota para estimular os compradores e possíveis leitores: “Caro leitor, o presente trabalho resgata da Antiguidade a proposta da imobilidade das estrelas e dos planetas, além de apresentar recentes observações, montadas a partir de hipóteses novas e admiráveis. Você também irá encontrar eficientes gráficos que irão lhe permitir calcular com facilidade as posições dos planetas em qualquer época. Assim sendo, compre, leia e lucre.”
Sobrinho do bispo, sendo ele mesmo um clérigo da igreja católica, Copérnico hesitou muito em publicar seu trabalho. Impresso na Alemanha, o primeiro exemplar chegou-lhe às mãos quando estava no leito da morte, e consta que sequer conseguiu folheá-lo. De início nada aconteceu: o livro era mesmo complicado e só os matemáticos muito especializados o entenderam. Quatro cientistas que vieram depois dele encarregaram-se de colocar a descoberta ao entendimento do distinto público. Na Itália, Galileu Galilei envolveu-se numa interminável polêmica com os homens da Inquisição, e só não acabou na fogueira porque pertencia ao mesmo partido político do Papa, dentro da Igreja, e conseguiu ser condenado apenas ao desterro na própria casa, onde morreu em paz. Tycho Brahe, astrônomo dinamarquês, construiu refinadíssimos instrumentos para observação celeste e fez com eles minuciosas anotações, com as quais pretendia contestar Copérnico. Não conseguiu, claro, mas outro polonês, Johannes Kepler, usou aquelas anotações para aperfeiçoar o trabalho original do conterrâneo. Finalmente, o inglês Isaac Newton criou uma nova ferramenta matemática, o cálculo, e com ele chegou à teoria da gravitação universal, que explica detalhadamente o funcionamento do Sistema Solar.
Esta é a história do Copernico, bem resumida, e do sistema por ele vislumbrado. Termina no século 17. Já no século 20, o escritor húngaro Arthur Koestler, filho de judeus que fugiu da Hungria para escapar de um pogroom, juntou-se aos pioneiros sionistas que foram para a Palestina, militou no Partido Comunista Alemão, combateu na Guerra Civil espanhola, ao lado dos republicanos, foi preso e condenado à morte, mas salvo por intervenção do governo inglês, alistou-se na Legião Estrangeira francesa para escapar da deportação para a Alemanha nazista – ufa, que vida. Escreveu 21 livros, o mais famoso dos quais é “O zero e o infinito”, mas para nossa história interessa o de 1959, “Os sonâmbulos”, em que narra os primórdios da Astronomia. Aí aparece Copérnico, claro, e ele garante que De revolutionibus foi um livro que ninguém leu, por ser complicado demais.
O americano Owen Gingerich, astrônomo como Copérnico, pesquisador de astronomia e de história da ciência em Harvard, tomou como ponto de honra provar que Koestler estava errado. E partiu mundo afora, em busca de todos os exemplares existentes da primeira e da segunda edições do De revolutionibus, para verificar se havia anotações feitas por seus proprietários originais que atestariam, com segurança, que a leitura fora feita. Os detalhes dessa epopéia estão no seu livro de 2002, “An annoted census of Copernico’s De revolutionibus”, onde ele descreve, uma a uma, as seiscentas cópias que conseguiu encontrar e estudar. É um livro para especialistas, quase tão difícil quanto o original de Copérnico. Mas depois brindou-nos com “O livro que ninguém leu – em busca das Revoluções de Copernico”, este sim, ao alcance do leitor comum, fascinante, já editado no Brasil pela Record (2008). Aqui ele conta como decidiu enfrentar o desafio de Koestler e narra todas as peripécias que cercaram suas andanças. De passagem, conta muitas coisas da vida de Copérnico e de seu trabalho. Ele conseguiu ter em mãos verdadeiras preciosidades, como os exemplares que pertenceram a Galileu, Kepler, Newton. A Biblioteca do Vaticano, apesar de a obra ter permanecido no Index das proibições até 1853, também tem a sua, que foi a que pertenceu a Tycho Brahe, e está cheia de anotações.
Já no prefácio do seu livro, Gingerich dá uma idéia de como será fácil enfrentar suas 375 páginas: “Em minha escrivaninha está uma tirinha de quadrinhos onde um jovem relata ao pai assombrado estar estudando o De Revolucionibus de Copérnico na escola. O ponto alto da piada se encontra no segundo quadrinho: “Sim, estamos aprendendo a pronunciar o título”. E logo no primeiro capítulo, faz um hilariante relato de seu desempenho como testemunha no julgamento de um homem acusado de roubar livros da biblioteca onde trabalhava, para vendê-los por bom dinheiro. Ele figurava nessa lista como especialista em preços de livros raros e o astuto advogado de defesa tentou desqualificá-lo:
-- Você já fez algum curso sobre estimativa de valor de livros?
-- Não, nunca fiz nenhum curso desse tipo. Tampouco fiz curso algum sobre história da ciência, embora lecione essa disciplina em Harvard.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário