Almyr Gajardoni
Sábado, dia 24 de maio, fui a Brasília rever meu amigo, companheiro e parceiro de reportagem política D’Alembert Jaccoud. Nós nos conhecemos na inauguração da cidade, em abril de 1960 – eu vindo da redação da
Folha, em São Paulo, ele da sucursal do Rio de Janeiro. A política que
eu cobria era provinciana e tacanha, espremida entre os limites que
iam de Adhemar de Barros a Jânio Quadros. Em São Paulo, os grandes
partidos, PSD, UDN, PTB, eram insignificantes diante dos dois
gigantes. Atravessar as portas do Congresso Nacional, recém abertas,
foi, portanto, uma grande descoberta para mim. Brasília foi na minha
vida a universidade que nunca frequentei – ali me tornei o que sou. E
D’Alembert, com sua vivência carioca, a militância na UNE, o
conhecimento dos grandes craques que eu ainda iria encontrar –
Santiago Dantas, Afonso Arinos, Bilac Pinto, Pedro Aleixo, Filinto
Muller, Adauto Cardoso, Almino Afonso, Temperani Pereira, o próprio presidente Juscelino Kubitschek – foi meu primeiro e melhor professor.
Eu observava a política à distância; ele vivia a política. De certa
forma, era um militante, até porque tinha sempre uma sólida posição
pessoal a respeito de tudo. Poderoso e convincente argumentador,
revelando já o advogado que viria a ser, embora naquele momento
tivesse o diploma enfurnado no guarda-roupa. Nasceu para ser
jornalista político e nada mais. Com idéias na cabeça, mas sem
partidos, impecavelmente neutro no que escrevia e publicava. Ninguém
jamais lhe negou a confiança para passar-lhe as informações que era
mestre em arrancar. Nunca lhe confessei, mas tinha dele uma inveja
danada: ele sentava-se meia hora com Martins Rodrigues, nos tempos
antigos do PSD ou nos mais recentes do MDB, e saía de lá com o balaio
cheio de informações sobre o que havia acontecido e o que ainda iria
acontecer. Eu, na mesma situação, conseguia no máximo uma declaração
chinfrim sobre uma banalidade qualquer.
Tudo isso ensaiei no avião para lhe dizer, no sábado, inclusive a
inveja. Não foi possível. Ele estava debilitado, falava com
dificuldade, não seria possível manter um diálogo assim diversificado.
Estava perfeitamente lúcido – pediu-me notícias de amigos comuns de
São Paulo, eu as dei laconicamente, e consegui dizer-lhe que era uma
pessoa muito importante na minha vida, que havia me ensinado muito.
Ele respondeu que eu também tinha sido importante para ele, e também
lhe ensinara muitas coisas. Confesso não ser capaz de enxergar que
coisas teriam sido essas. Lembrei nossos companheiros daqueles tempos,
Castelinho (Carlos Castelo Branco), Evandro (Carlos de Andrade),
Benedito Coutinho, Otacílio Lopes. Ele me observou, com uma inesperada
ponta de vivacidade no olhar e de ironia na fala: “Estão todos mortos,
não é?”.
Cansou-se rapidamente com a conversa e adormeceu. Peguei o avião de
volta para São Paulo, no domingo recebi a notícia de que havia
morrido. Comecei então a lembrar. Fomos parceiros na cobertura de
alguns momentos importantes da política brasileira. A renúncia de
Jânio Quadros, que bloqueou a consolidação do regime democrático há
pouco restabelecido e nos devolveu àquela sinistra sucessão de crises
e ameaças de golpe militar. Todo o atribulado governo João Goulart, o
golpe propriamente dito em 1964. Nessa época, ele era o correspondente
da agência de notícias cubana Prensa Latina, e sofreu por isso
diversos atropelos. Acabamos separados profissionalmente: eu fui para
a Veja recém fundada, em 1968, enquanto ele continuava na Folha e no
JB, onde mantinha a coluna “Coisas da Política” e substituía o
Castelinho na “Coluna do Castelo”. Éramos concorrentes, mas sempre
amigos.
Em 1971, devido à sua insistência em buscar a verdade sobre a prisão e
o assassinato do então deputado Rubens Paiva, foi preso pelo Doi-Codi.
Nos anos seguintes, as pressões militares para afastá-lo do jornalismo
deram certo e ele saiu dos dois jornais. A convite de Zuenir Ventura,
passou a chefiar a sucursal da revista Visão em Brasília.
Quando Said Farah vendeu a Visão para Henry Maksoud, em 1974,
hospedei-o em minha casa, em São Paulo, onde toda a redação, demitida
coletivamente, se reuniu, para cuidar da vida. Era uma grande equipe
– Zuenir, Luiz Garcia, Vladimir Herzog, Luiz Weis, Rodolfo Konder.
Cada um seguiu seu caminho próprio, no jornalismo, menos D’Alembert:
tirou o diploma do armário e foi advogar com Sigmaringa Seixas, em
Brasília.
Algum tempo depois, conseguimos convencê-lo a voltar ao jornalismo:
foi ser chefe da sucursal de Veja em Brasília, tendo Pompeu de Souza
como chefe do escritório. Voltamos à nossa velha parceria, pois eu era
o editor de política em São Paulo, junto com Marcos Sá Corrêa,
primeiro, depois sozinho. Logo depois, quando Pompeu se envolveu na
malograda candidatura oposicionista do general Euler Bentes Monteiro à
presidência da República, a sucursal de Veja em Brasília entrou em
crise e ele ficou mais uma vez desempregado (eu já deixara a editoria
de política, mas não perdera o emprego, preparava um livro para
comemorar o décimo aniversário da revista).
Então não houve argumentos que o convencessem, e na verdade ele não
tinha mais motivo nenhum para se deixar convencer. Voltou à advocacia,
agora no escritório de Vitor Nunes Leal, onde se tornou parceiro de
Sepúlveda Pertence.
Trago este artigo homenagem a um companheiro de outro Estado para o jornal do nosso sindicato porque em dois momentos dessa história acima relatada ele foi importante para nós: na histórica greve de 1961, embora nada tivesse a ver com o nosso sindicato (ele era do sindicato do Rio de Janeiro), aderiu prontamente e com entusiasmo à paralisação que eu, Ruy Lopes, Haroldo Lima impusemos à sucursal da Folha em Brasília. E em 1978, quando o Sindicato desencadeou uma série de movimentos nas grandes empresas, ele teve outra vez papel destacado embora não fosse de São Paulo: havíamos conseguido parar a Editora Abril, mas só teríamos sucesso se a Redação de Veja também parasse. Na quinta-feira decisiva, ele fechou a torneira do telex, como haviam feito os outros correspondentes nos Estados e no exterior, e nós conseguimos aprovar as nossas reivindicações.
Depois daquela tardia mútua declaração de amor, no sábado à
tarde, ficou entre nós apenas uma séria pendência não resolvida:
definir onde se produzem melhores mangas e abacates, se na minha
pujante, moderna e progressista Birigui, em São Paulo, ou na
insignificante e obscura Alegre dele, no Espírito Santo?
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